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O Efeito da Idade Relativa no futebol de formação

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O Efeito da Idade Relativa no futebol de formação

Esta imagem diz muito sobre o futebol de formação. Nela, um jovem jogador do Manchester United FC tenta proteger a bola entre dois adversários da AS Roma claramente mais altos, mais fortes e já com sinais evidentes de maturação física. A diferença é tão grande que à primeira vista parece aquele jogador pequeno e franzino está a competir contra atletas mais velhos.

Esse jogador é Jesse Lingard.

Na altura tinha cerca de 15 anos e participava na Nike Cup, mas nasceu a 15 de dezembro, praticamente no final do ano. Num sistema organizado por ano civil, isso significava que podia estar a competir contra jogadores quase um ano mais velhos, o que nestas idades se traduz em diferenças muito significativas ao nível físico e não só.

Anos mais tarde, numa entrevista ao The Players’ Tribune, o próprio Lingard recordou esse momento:

“Tenho uma foto minha da Nike Cup, e o meu irmão está sempre a rir-se dela. Estamos a jogar contra a Roma. Eu tenho 15 anos, mas pareço ter 10. E aqueles rapazes italianos têm 15, mas parecem ter 25.”

E acrescentou um detalhe que ajuda a perceber bem a diferença de maturação:

“Lembro-me de entrar em campo e ver que aqueles miúdos já tinham barba, e eu a pensar… fogo. (…) Eu pareço uma mascote que entrou em campo só para fazer rir.”

Apesar disso, a sua equipa venceu o jogo e ele próprio estava num bom momento. No entanto, como o próprio explica, o problema não era o rendimento em campo, mas o facto de ainda não estar a crescer ao mesmo ritmo:

“A parte engraçada é que ganhámos esse jogo. Ganhámos muitos jogos nessa altura e eu estava a jogar bem, mas eu ainda não estava a crescer. Quando fiz 16 anos, vi muitos colegas da minha equipa receber contratos profissionais, mas a mim não me ofereceram nenhum. Fiquei de rastos.”

A história podia ter terminado aí, como acontece com tantos jovens jogadores. Mas não terminou.

Como o próprio admite, houve uma figura determinante nesse momento: Alex Ferguson.

“Sinceramente, não acho que estaria aqui se não fosse o Sir Alex. Um dia, ele reuniu-se comigo e com a minha família no escritório dele e disse: ‘Vai demorar algum tempo para ti, Jesse. Nós acreditamos em ti, mas vais ter de ser paciente. Não vais estar pronto para a primeira equipa até teres 22 ou 23 anos.’”

Essa conversa acabou por marcar o seu percurso:

“Não consigo explicar o quanto isso significou para mim e para a minha família. Podiam pensar que eu ficaria desiludido, mas quando uma lenda como o Sir Alex diz que acredita em ti, isso significa tudo.”

A diferença não estava no talento mas sim no momento do seu desenvolvimento. E foi preciso alguém com essa capacidade de leitura para perceber isso.

É precisamente este tipo de contexto que ajuda a perceber o impacto do Efeito da Idade Relativa.

O que é o Efeito da Idade Relativa

No futebol de formação, os escalões são definidos pelo ano civil. Todos os jogadores nascidos no mesmo ano competem entre si, independentemente do mês em que nasceram.

À primeira vista parece um sistema equilibrado, mas na prática não é bem assim.

Um jogador nascido a 1 de janeiro pode ser quase um ano mais velho do que outro nascido a 31 de dezembro. Em idades jovens, essa diferença não se nota apenas no físico. Nota-se também na forma como o jogador pensa e vive o jogo. Um jogador mais velho, mesmo que apenas uns meses, tende a estar mais desenvolvido, não só ao nível da força ou da velocidade, mas também na forma como decide, reage à pressão e interpreta o jogo. Isso faz com que, muitas vezes, pareça mais preparado dentro de campo.

Isto faz com que, muitas vezes, pareça mais “pronto” em campo. Não só porque é mais forte ou mais rápido, mas porque joga com mais segurança e confiança.

É daqui que surge o chamado Efeito da Idade Relativa. Jogadores nascidos nos primeiros meses do ano tendem a ter uma vantagem inicial que influencia a forma como se destacam e como são avaliados.

Quando maturação parece talento

Quem acompanha jogos de formação já viu isto inúmeras vezes.

Num jogo de sub-13 ou sub-14 é comum vermos jogadores que se destacam pela forma como dominam fisicamente o jogo. Ganham duelos, chegam primeiro às bolas e conseguem impor-se com relativa facilidade. Naturalmente, chamam mais a atenção e são muitas vezes vistos como os mais talentosos. Por exemplo, avançados que por serem muito altos, fortes fisicamente e rápidos, mesmo que sejam menos habilidosos, têm maior facilidade em fazer muitos golos do que o avançado com capacidade técnica mas que não tem a mesma facilidade de ganhar na corrida ou impor-se fisicamente.

Mas essa vantagem nem sempre está ligada apenas ao talento. Muitas vezes, estamos a olhar para jogadores que estão numa fase mais avançada de desenvolvimento físico, mas também cognitivo e emocional. Isso permite-lhes tomar melhores decisões, jogar com mais confiança e adaptar-se melhor ao ritmo competitivo.

Ao mesmo tempo, há outros jogadores que parecem ter menos impacto. São mais pequenos, menos fortes e demoram mais tempo a impor o seu jogo. Ainda assim, podem revelar qualidade técnica, criatividade e uma boa leitura de jogo.

O problema é que, muitas vezes, estamos a avaliar o que o jogador é naquele momento e não aquilo que pode vir a ser.

A vantagem que se acumula

A vantagem inicial não se limita ao físico. Muitas vezes começa aí mas rapidamente se estende a outras dimensões do jogo.

Um jogador mais desenvolvido tende a ter mais minutos de jogo, mais confiança por parte do treinador e mais protagonismo dentro da equipa. Com mais tempo de jogo, evolui mais em contexto competitivo e poderá fazer com que destaque mais, aumenta assim também a probabilidade de ser observado por clubes com melhores condições e acaba por chegar a melhores contextos.

No fundo, uma pequena vantagem inicial pode transformar-se num efeito acumulado ao longo dos anos: mais oportunidades, mais desenvolvimento, mais visibilidade e acesso a melhores contextos.

E tudo pode começar com algo tão simples como o mês de nascimento.

O que mostram os dados?

Para perceber até que ponto este fenómeno se reflete no futebol jovem, analisámos os jogadores utilizados pelas equipas vencedoras nas finais de três competições de referência do futebol de formação:

  • Mundial Sub-17
  • UEFA Youth League
  • Copinha do Brasil

No total foram analisados 49 jogadores.

A distribuição por trimestre de nascimento foi a seguinte:

TrimestreJogadores
Janeiro – Março25 jogadores
Abril – Junho13 jogadores
Julho – Setembro5 jogadores
Outubro – Dezembro6 jogadores

Se a distribuição fosse equilibrada, seria expectável encontrar cerca de 12 jogadores por trimestre. No entanto, mais de metade dos jogadores analisados nasceu no primeiro trimestre do ano.

Quando olhamos para a divisão do ano em dois semestres, o padrão torna-se ainda mais claro:

SemestreJogadores
Janeiro – Junho38 jogadores
Julho – Dezembro11 jogadores

Ou seja, cerca de 78% dos jogadores nasceram na primeira metade do ano.

Mais do que um detalhe estatístico, estes números mostram uma tendência difícil de ignorar: quanto mais nos aproximamos do topo competitivo na formação, mais encontramos jogadores nascidos nos primeiros meses do ano.

Distribuição por trimestre de nascimento
Jogadores utilizados nas finais analisadas, por equipa e trimestre.
EquipaJan-MarAbr-JunJul-SetOut-Dez
Portugal (Mundial Sub-17)8620
Barcelona (UEFA Youth League)8422
Cruzeiro (Copinha)9313

Um padrão que se repete

Quando analisamos cada equipa individualmente, a tendência mantém-se:

EquipaJan-MarAbr-JunJul-SetOut-Dez
Portugal (Mundial Sub-17)8620
Barcelona (UEFA Youth League)8422
Cruzeiro (Copinha)9313

No caso da seleção portuguesa que venceu o Mundial Sub-17, por exemplo, 14 dos 16 jogadores utilizados na final nasceram na primeira metade do ano e nenhum nasceu no último trimestre.

Embora seja uma amostra apenas com e equipas, o padrão repete-se em contextos diferentes, o que reforça a ideia de que o mês de nascimento pode ter impacto no percurso de desenvolvimento.

Podemos concluir que…

No futebol de formação, o mês de nascimento não decide o valor de um jogador, mas pode influenciar muito o caminho que ele percorre até chegar ao topo. Uma diferença de alguns meses pode significar mais minutos, mais confiança, mais oportunidades e, por isso, mais crescimento. É por isso que o desafio para treinadores e scouts não está apenas em identificar quem se destaca hoje, mas em perceber quem pode evoluir mais amanhã, mesmo quando ainda não parece pronto. A história de Jesse Lingard e os dados destas finais lembram-nos precisamente isso: no futebol jovem, nem sempre o jogador mais adiantado é o jogador com mais futuro.

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