Num grupo de jogadores em campo, escolher um deles não é apenas uma questão de identificar talento. É perceber qual deles corresponde exatamente ao que a equipa precisa.
No futebol moderno, observar jogadores deixou de ser apenas uma questão de identificar talento. Cada vez mais, o verdadeiro desafio do scouting está em encontrar jogadores que façam sentido para uma ideia de jogo, para uma função específica dentro da equipa e para o contexto competitivo do clube. Muitas vezes, o erro não está na observação em si, mas no ponto de partida: observar sem um perfil definido. Quando um clube não tem critérios claros sobre o que procura numa determinada posição, corre o risco de avaliar jogadores apenas com base na impressão do momento ou na qualidade individual isolada. Um jogador pode ser muito bom mas isso não significa automaticamente que seja o jogador certo para aquela equipa. Falaremos disso mais à frente.
O que é um perfil de jogador?
Definir um perfil de jogador significa estabelecer, de forma clara, quais são as características que um atleta deve apresentar para desempenhar determinada função dentro da equipa. Essas características podem ser técnicas, táticas, físicas ou mesmo comportamentais.
Podemos falar em três tipos de perfil:
- Perfil ideal – o jogador que reúne todas as características desejadas para aquela função no modelo de jogo da equipa.
- Perfil possível – jogadores que não cumprem totalmente o perfil ideal mas que apresentam várias características relevantes e podem adaptar-se ao contexto.
- Perfil de desenvolvimento – jogadores que ainda não apresentam todas as características necessárias mas que mostram potencial para evoluir nesse sentido.
Esta distinção é importante porque ajuda o departamento de scouting a perceber se está a procurar rendimento imediato ou projeção futura.
O perfil nasce do modelo de jogo
Um dos erros mais comuns no scouting é tentar definir perfis de forma abstrata, sem ligação ao modelo de jogo da equipa ou do clube.
Na realidade, o perfil de um jogador deve nascer de perguntas muito simples:
- Como queremos atacar?
- Como queremos defender?
- Que funções existem em cada posição?
- Que características são essenciais para cumprir essas funções?
Um lateral numa equipa que procura largura ofensiva constante terá necessidades diferentes de um lateral numa equipa que privilegia equilíbrio defensivo. Da mesma forma, um avançado numa equipa que dependa muito de cruzamentos para a área e de jogo direto terá de ter características diferentes de um avançado numa equipa que privilegia mobilidade e jogo entre linhas.
É por isso que dois jogadores da mesma posição podem representar perfis completamente distintos.
Dois laterais, dois perfis diferentes
Para ilustrar esta ideia, podemos comparar dois jogadores imaginários com perfis distintos de laterais direitos.
Rodrigo Valente representa um lateral com características mais ofensivas. É um jogador rápido, com boa capacidade de condução e facilidade no drible em progressão. Procura frequentemente projetar-se no ataque, chegar à linha de fundo e criar situações de cruzamento.
Por outro lado, André Baptista apresenta um perfil mais defensivo. Com maior estatura e presença física, destaca-se no duelo, no posicionamento defensivo e no controlo do adversário no corredor. É um jogador sólido na proteção da linha defensiva, oferecendo mais estabilidade defensiva do que projeção ofensiva.
Ambos podem ser jogadores muito competentes na mesma posição. A diferença está no tipo de equipa em que jogam.
Se um clube procura laterais para jogar projetados, capazes de criar desequilíbrios ofensivos e chegar frequentemente à linha de fundo, um perfil como o de Rodrigo Valente pode encaixar melhor. Se o objetivo for garantir maior estabilidade defensiva e controlo do adversário direto, um perfil como o de André Baptista pode fazer mais sentido.
Abaixo podemos ver um exemplo prático desta diferença de perfil entre dois jogadores da mesma posição.
Dois avançados, funções completamente diferentes
O mesmo raciocínio pode ser aplicado à posição de avançado.
Miguel Ferraz é um avançado de área com forte presença física. Com 1,92 m de altura, destaca-se no jogo aéreo, na capacidade de fixar os centrais e na ocupação constante da zona de finalização.
Por outro lado, Tiago Neves apresenta um perfil completamente diferente. Menos dominante fisicamente mas mais móvel e tecnicamente evoluído, destaca-se pela capacidade de baixar no terreno para participar na construção ofensiva. Procura jogar entre linhas, associar-se ao jogo e criar espaço para os colegas através das suas movimentações.
Mais uma vez, ambos podem ter grande qualidade individual. No entanto, o contexto em que são utilizados faz toda a diferença.
Se uma equipa precisa de presença constante na área e capacidade para atacar cruzamentos laterais, Miguel Ferraz poderá ser o perfil mais adequado. Se o objetivo for ter um avançado mais móvel, capaz de associar jogo e criar espaços para os colegas, Tiago Neves poderá oferecer soluções diferentes.
A comparação seguinte mostra como dois avançados da mesma posição podem apresentar características bastante distintas.
O risco de observar “ao sabor do momento”
Quando um departamento de scouting não trabalha com perfis bem definidos, as avaliações tendem a tornar-se inconsistentes.
Dois scouts podem observar o mesmo jogo e chegar a conclusões completamente diferentes, simplesmente porque estão a valorizar aspetos distintos do desempenho do jogador.
Definir perfis ajuda a criar critérios comuns dentro do departamento. Todos os observadores passam a analisar o jogador com base nos mesmos princípios e nas mesmas perguntas:
- O jogador encaixa no perfil que procuramos?
- Que características cumprem esse perfil?
- Onde existem lacunas?
Isto não elimina a componente subjetiva do scouting mas reduz significativamente o ruído na avaliação.
Perfis também mudam com a idade
Outro aspeto importante é que o perfil de jogador não deve ser igual em todos os escalões.
Num contexto de formação, especialmente nos escalões mais jovens, muitas vezes faz mais sentido procurar potencial de desenvolvimento do que características completamente consolidadas.
O perfil de um lateral sub-13, por exemplo, não deve ser idêntico ao de um lateral sub-19 ou sénior. À medida que os jogadores se aproximam do futebol adulto, os critérios tornam-se naturalmente mais exigentes e específicos.
Ter esta sensibilidade permite alinhar melhor o trabalho entre formação e equipa principal. Além disso, é importante ter em conta fatores como o Efeito de Idade Relativa, que pode influenciar o desenvolvimento físico e competitivo dos jogadores nos escalões mais jovens e, consequentemente, a forma como são avaliados dentro de determinados perfis.
Observar melhor começa antes do jogo
No fundo, definir perfis de jogador não serve para limitar a observação, serve para a tornar mais clara e mais consistente.
Um scout que entra num jogo a saber exatamente o que procura observa de forma diferente. Consegue filtrar melhor a informação, identificar comportamentos relevantes e avaliar com maior objetividade.
O scouting não começa quando o jogo começa, começa quando o clube define, com clareza, o tipo de jogador que procura.